A coleção do Octopus
por Juliana Monachesi | fevereiro de 2010 | em ocasião da exposição Octopus Garden na Central galeria de Arte
Um “jardim de polvo” é algo como uma coleção aleatória. Uma reunião de objetos que os tentáculos do polvo recolheram na infinidade oceânica de seu entorno e que este “organizou” em sua morada profunda. Se o título da mostra ecoa a canção homônima dos Beatles ou a iniciativa do curador Claudio Matsuno de reunir os oito artistas presentes nesta exposição, ele também sintetiza de forma lírica os mecanismos de criação das obras expostas.
Senão, vejamos. Os artistas cuja produção alcançou a maturidade na primeira década deste século têm algumas características em comum. Eles se apropriam de elementos históricos (da sociedade, da cultura, da arte) de maneira mais conciliatória do que combativa, diferente do modus operandi do artista moderno, que tinha sempre no horizonte negar a tradição. Eles possuem uma tendência à fabulação que mescla o real e o ficcional e à invenção de mitologias particulares.
O curador nos fala de “fabulações inócuas” reunidas em “um jardim cuja atmosfera emerge do trabalho de cada artista da exposição”. Assim, meu passeio pelo jardim do polvo se dá como uma aposta crítica em que o elemento que permeia todos os trabalhos é a apropriação afetiva da história e a tendência alegórica. É deste duplo prisma que eu proponho a análise das obras de Alexis Iglesias, Claudio Matsuno, Luciano Zanette, Monica Rizzolli, Nilson Sato, Nino Cais, Paula Ordonhes e Reynaldo Candia.
Como não ver um flerte com a tradição da pintura metafísica nas obras de Alexis Iglesias? Ou, ainda, um jogo com o fascínio do futurismo pelas máquinas de todo tipo? Em lugar de um combate moderno ou uma simples citação pós-moderna, o que vemos nestas pinturas é um fundo expressionista acolhendo ou mesmo estruturando a aparição do invento inócuo de alguma indústria fantástica da construção civil. Na tela de tons terrosos, é uma maravilha óptica que toma o primeiro plano e lança uma sombra duchampiana sobre uma bancada erodida pelo tempo, mas embelezada por uma luz sobrenatural.
É também em um oceano de referências tentaculares que vamos situar as obras de Luciano Zanette, Monica Rizzolli e Reynaldo Candia. A escultura de grandes dimensões em madeira de Zanette presta homenagem às cruzes pretas de Malevich e aos cubos abertos incompletos de Sol LeWitt, mas não de forma direta, senão como uma identificação a posteriori de um parentesco com os dois artistas: “Malevich e LeWitt contribuíram para a constituição do meu imaginário poético, que deve consideravelmente à economia de meios do construtivismo russo e do minimalismo norte-americano”.
Monica Rizzolli flerta com Klimt e Matisse nas três pinturas expostas, ao mesmo tempo em que insere seus personagens em uma “ambientação” geométrica, como se as mulheres que habitam os quadros e que desfilam uma infinidade de padronagens apropriadas da tradição folheassem um mostruário de gêneros pictóricos para escolher o fundo contra o qual querem aparecer. Reynaldo Candia é outro a afirmar sem rodeios os parentescos de sua produção recente: “minha influência são as fotocolagens realizadas na Europa Central durante os anos 1918 a 1945”. A forma dadaísta ou surrealista encontra em suas colagens uma vontade de oferecer representações paradoxalmente mais “realistas” da vida urbana.
Já os trabalhos de Claudio Matsuno, Nilson Sato, Nino Cais e Paula Ordonhes habitam o campo da fabulação. Matsuno inventa um microcosmo em que seres algo mutantes –assim como as flores de seu jardim– comportam-se de forma análoga aos seres humanos, por ascensão e queda, comunhão e isolamento, silêncio e agitação, nascimento e morte. Cabeças, galhos e teias formam o imaginário grotesco deste universo paralelo que, por meio de intervenções diretamente sobre a parede, é extravasado dos desenhos para a vida.
Os desenhos de Nilson Sato partem de registros fotográficos feitos pelo artista de personagens anônimos. Quando transferidos do contexto poluído das ruas de São Paulo para o branco do papel, além de “simplificados” em branco e preto, seus personagens passam a protagonizar, imaginariamente, uma espécie de storyboard, suspense noir em que, conforme a interpretação do curador, “uma impressão de espera e dúvida sugere que algo poderá acontecer a qualquer momento naquele trépido instante”.
Também na seqüência de fotos que Paula Ordonhes apresenta há um suspense instalado: uma história com muitos hiatos e em que o “fora de quadro” é permanentemente sugerido, sem nunca ser revelado. A artista incorpora diferentes personas, uma das quais talvez seja ela mesma, e nesse jogo de passar de um papel a outro sem conflito reside a maior opacidade da narrativa. O trabalho foi realizado em 2000 e, se o figurino anos 1970 tinha por objetivo retirar do tempo a ação fotografada, ao revisitar esta obra dez anos depois, a artista promove um encontro duplamente deslocado no tempo, que aumenta a ambigüidade entre real e ficcional.
Como Paula Ordonhes, Nino Cais protagoniza ações para serem fotografadas. Na obra exposta aqui, ele surge no lugar de uma mesa sobre a qual foi estendida uma toalha bordada para que um vaso de planta fosse ali depositado. Transformado em “aparador”, o artista realiza a operação inversa de trabalhos anteriores: em lugar de antropomorfizar os objetos do cotidiano, ele objetifica o próprio corpo, como a testar os limites da afetividade. No conjunto escultórico que junto da foto, uma fábula aplica à realidade, o artista mostra o caminho para encontrar a “galinha dos ovos de ouro” da arte.
Da mesma maneira que uma “coleção” do polvo só se torna algo além de casualidade pelo olhar humano, que quer ver ali um jardim cultivado pelo molusco, um crítico de arte não consegue deixar de ver sentidos ocultos onde um grupo de artistas –ou um artista-curador– quis apenas reunir um conjunto coerente de obras. Portanto, ao final do passeio por “Octopus' Garden”, não há como não acrescentar que estas obras falam do assombro que deve tomar o artista quando, depois de cultivar cuidadosamente algumas idéias e alguns materiais, se vê diante de algo maior e mais insondável do que ele.


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